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Teologia Relacional
Um Novo Deus no Mercado
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27.04.2005 11:37
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Os reflexos da onda gigante que
provocou a tremenda catástrofe na Ásia no final de
dezembro de 2004 alcançaram também os arraiais
evangélicos, levantando, entre outras coisas,
perguntas acerca de Deus, seu caráter, seu poder,
seu conhecimento, seus sentimentos e seu
relacionamento com o mundo e as pessoas diante de
tragédias como aquela. Dentre as diferentes
respostas, uma chama a atenção pela ousadia de suas
afirmações: Deus sofreu muito com a tragédia e
certamente não a havia determinado ou previsto. Ele
simplesmente não pôde evitá-la, pois Deus não
conhece o futuro, não controla ou guia a história, e
não tem poder para fazer aquilo que gostaria. Esta é
a concepção de Deus defendida por um movimento
teológico conhecido como teologia relacional, ou
ainda, teísmo aberto ou teologia da abertura de
Deus.
A teologia relacional, como movimento, teve início
em décadas recentes, embora seus conceitos sejam bem
antigos. Ela ganhou popularidade através de
escritores norte-americanos como Greg Boyd, John
Sanders e Clark Pinnock. No Brasil, estas idéias têm
sido assimiladas e difundidas por alguns líderes
evangélicos, às vezes de forma aberta e explicita.
A teologia relacional considera a concepção
tradicional de Deus como inadequada, ultrapassada e
insuficiente para explicar a realidade,
especialmente catástrofes como o tsunami de dezembro
de 2004, e se apresenta como uma nova visão sobre
Deus e sua maneira de se relacionar com a criação.
Seus pontos principais podem ser resumidos desta
forma:
1. O atributo mais importante de Deus é o amor.
Todos os demais estão subordinados a este. Isto
significa que Deus é sensível e se comove com os
dramas de suas criaturas.
2. Deus não é soberano. Só pode haver real
relacionamento entre Deus e suas criaturas se estas
tiverem, de fato, capacidade e liberdade para
cooperarem ou contrariarem os desígnios últimos de
Deus. Deus abriu mão de sua soberania para que isto
ocorresse. Neste sentido, ele é incapaz de realizar
tudo o que deseja, como impedir tragédias e
erradicar o mal. Contudo, ele acaba se adequando às
decisões humanas e ao final, vai obter seus
objetivos eternos, pois redesenha a história de
acordo com estas decisões.
3. Deus ignora o futuro, pois ele vive no tempo, e
não fora dele. Ele aprende com o passar do tempo. O
futuro é determinado pela combinação do que Deus e
suas criaturas decidem fazer. Neste sentido, o
futuro inexiste, pois os seres humanos são
absolutamente livres para decidir o que quiserem e
Deus não sabe antecipadamente que decisão uma
determinada pessoa haverá de tomar num determinado
momento.
4. Deus se arrisca. Ao criar seres racionais livres,
Deus estava se arriscando, pois não sabia qual seria
a decisão dos anjos e de Adão e Eva. E continua a se
arriscar diariamente. Deus corre riscos porque ama
suas criaturas, respeita a liberdade delas e deseja
relacionar-se com elas de forma significativa.
5. Deus é vulnerável. Ele é passível de sofrimento e
de erros em seus conselhos e orientações. Em seu
relacionamento com o homem, seus planos podem ser
frustrados. Ele se frustra e expressa esta
frustração quando os seres humanos não fazem o que
ele gostaria.
6. Deus muda. Ele é imutável apenas em sua essência,
mas muda de planos e até mesmo se arrepende de
decisões tomadas. Ele muda de acordo com as decisões
de suas criaturas, ao reagir a elas. Os textos
bíblicos que falam do arrependimento de Deus não
devem ser interpretados de forma figurada. Eles
expressam o que realmente acontece com Deus.
Estes conceitos sobre Deus decorrem da lógica
adotada pela teologia relacional quanto ao conceito
da liberdade plena do homem, que é o ponto
doutrinário central da sua estrutura, a sua “menina
dos olhos”. De acordo com a teologia relacional,
para que o homem tenha realmente pleno livre
arbítrio suas decisões não podem sofrer qualquer
tipo de influência externa ou interna. Portanto,
Deus não pode ter decretado estas decisões e nem
mesmo tê-las conhecido antecipadamente. Desta forma,
a teologia relacional rejeita não somente o conceito
de que Deus preordenou todas as coisas (calvinismo)
como também o conceito de que Deus sabe todas as
coisas antecipadamente (arminianismo tradicional).
Neste sentido, o assunto deve ser entendido, não
como uma discussão entre calvinistas e arminianos,
mas destes dois contra a teologia relacional. Não
poucos lideres calvinistas e arminianos no âmbito
mundial têm considerado esta visão da teologia
relacional como alheia ao Cristianismo.
A teologia relacional traz um forte apelo a alguns
evangélicos, pois diz que Deus está mais próximo de
nós e se relaciona mais significativamente conosco
do que tem sido apresentado pela teologia
tradicional. Segundo os teólogos relacionais, o
Cristianismo histórico tem apresentado um Deus
impassível, que não se sensibiliza com os dramas de
suas criaturas. A teologia relacional, por sua vez,
pretende apresentar um Deus mais humano, que
constrói o futuro mediante relacionamento com suas
criaturas. Os seres humanos são, dessa forma,
co-participantes com Deus na construção do futuro,
podendo, na verdade, determiná-lo por suas atitudes.
Contudo, a teologia relacional não é novidade. Ela
tem raízes em conceitos antigos de filósofos gregos,
no socinianismo (que negava exatamente que Deus
conhecia o futuro, pois atos livres não podem ser
preditos) e especialmente em ideologias modernas,
como a teologia do processo. O que ela tem de novo é
que virou um movimento teológico composto de
escritores e teólogos que se uniram em torno dos
pontos comuns e estão dispostos a persuadir a Igreja
Cristã a abandonar seu conceito tradicional de Deus
e a convencê-la que esta “nova” visão de Deus é
evangélica e bíblica.
Mesmo tendo surgido como uma reação a uma possível
ênfase exagerada na impassividade e transcendência
de Deus, a teologia relacional acaba sendo um
problema para a igreja evangélica, especialmente em
seu conceito sobre Deus. Muito embora os evangélicos
tenham divergências profundas em algumas questões,
reformados, arminianos, wesleyanos, pentecostais,
tradicionais, neopentecostais e outros, todos
concordam, no mínimo, que Deus conhece todas as
coisas, que é onipotente e soberano. Entretanto, o
Deus da teologia relacional é totalmente diferente
daquele da teologia cristã. Não se pode afirmar que
os aderentes da teologia relacional não são
cristãos, mas sim que o conceito que eles têm de
Deus é, no mínimo, estranho ao cristianismo
histórico.
Ao declarar que o atributo mais importante de Deus é
o amor, a teologia relacional perde o equilíbrio
entre as qualidades de Deus apresentadas na Bíblia,
dentre as quais o amor é apenas uma delas. Ao dizer
que Deus ignora o futuro, é vulnerável e mutável,
deixa sem explicação adequada dezenas de passagens
bíblicas que falam da soberania, do senhorio, da
onipotência e da onisciência de Deus (Is 46.10a; Jó
28; Jó 42.2; Sl 90; Sl 139; Rm 8.29; Ef 1; Tg 1.17;
Ml 3.6; Gn 17.1; etc). Ao dizer que Deus não sabia
qual a decisão de Adão e Eva no Éden, e que mesmo
assim arriscou-se em criá-los com livre arbítrio, a
teologia relacional o transforma num ser
irresponsável. Ao falar do homem como co-construtor
de Deus de um futuro que inexiste, a teologia
relacional esquece tudo o que a Bíblia ensina sobre
a Queda e a corrupção do homem. Ao fim, parece-nos
que na tentativa extrema de resguardar a plena
liberdade do arbítrio humano, a teologia relacional
está disposta a sacrificar a divindade de Deus. Ao
limitar sua soberania e seu pleno conhecimento,
entroniza o homem livre, todo-poderoso, no trono do
universo, e desta forma, deixa-nos o desespero como
única alternativa diante das tragédias e catástrofes
deste mundo e o ceticismo como única atitude diante
da realidade do mal no universo, roubando-nos o
final feliz prometido na Bíblia. Pois, afinal,
poderá este Deus ignorante, fraco, mutável,
vulnerável e limitado cumprir tudo o que prometeu?
Com certeza a visão tradicional de Deus adotada pelo
Cristianismo histórico por séculos não é capaz de
responder exaustivamente a todos os questionamentos
sobre o ser e os planos de Deus. Ela própria é a
primeira a admitir este ponto. Contudo, é preferível
permanecer com perguntas não respondidas a aceitar
respostas que contrariam conceitos claros das
Escrituras. Como já havia declarado Jó há milênios
(42.2,3): “Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus
planos pode ser frustrado. Quem é aquele, como
disseste, que sem conhecimento encobre o conselho?
Na verdade, falei do que não entendia; coisas
maravilhosas demais para mim, coisas que eu não
conhecia.”
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Rev. Augustus
Nicodemus Lopes, professor do Centro
Presbiteriano de Pós-graduação Andrew
Jumper e chanceler da Universidade
Presbiteriana Mackenzie
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